Galdino vive!

Fotomix: Galdino na Cohab 5, Carapicuíba, São Paulo, de Dubdem./Dubzaine/Indigenous Resistance.

 

Galdino Jesus dos Santos. Guerreiro Pataxó.

A luta continua.

 

 

Galdino Jesus dos Santos

Foto: Divulgação.

 

 

Correio Braziliense, Galdino

 Capa de jornal da época.  Foto: Divulgação.

Brasília, 20 de abril de 1997, Galdino Jesus dos Santos, guerreiro Pataxó que participara dos protestos no Dia do Índio, dormia em um ponto de ônibus da cidade. Enquanto isso, cinco jovens de classe média alta da cidade, filhos de políticos e pessoas influentes decidiram sair para se divertir. O encontro destes personagens pelas ruas de Brasília é o marco de um episódio cruel contra o povo indígena brasileiro.

 

Galdino foi assassinado, queimado até a morte, em um ato covarde e inaceitável. Os cinco jovens decidiram se divertir colocando fogo em uma vítima escolhida ao acaso nas ruas da cidade. Jogaram álcool no corpo adormecido e atearam fogo em Galdino. Premeditado, perverso, covarde. Fugiram sem prestar socorro, talvez até achando graça da situação. "Foi só brincadeira". Brincadeira de matar pessoas. Que brincadeira é essa? Que tipo de humanidade é essa? Isto aconteceu em 1997, mas inexplicavelmente, os responsáveis nunca foram condenados pelo ato covarde e bestial que fizeram. Até hoje estão soltos (veja abaixo link com matéria sobre o caso).  

 

Mais que um ato de crueldade extrema, este fato se tornou um símbolo de descaso e ignorância da sociedade brasileira com o nosso povo indígena. A morte de Galdino, trouxe para a realidade, mais de 500 anos de desrespeito com os verdadeiros brasileiros, mostrando uma face obscura da sociedade que marginaliza qualquer participação social indígena.

 

O Brasil tem em sua essência a raiz cultural deixada por Tupis, Pataxós, Tabajaras e tantos outros povos. Está em nomes de ruas e na culinária e a identidade indígena é até considerada um de nossos patrimônios. Mas é fácil perceber que isso se restringe aos registros históricos nos livros de escola porque de uma forma geral, a visão é ainda romântica e determinada pelo estereótipo estabelecido desde o descobrimento.

 

O índio, para a maioria dos brasileiros, é uma lembrança que vem à mente uma vez por ano, quando se comemora o Dia do Índio. A visão é a mesma de 500 anos atrás, eles sem roupa e com os corpos pintados, cantando em seus rituais.

 

É pela iniciativa de desfazer este preconceito que este assunto precisa ser debatido e incorporado em nosso cotidiano, até que a verdade seja considerada e suas vozes ouvidas. Nossa sociedade precisa entender que o índio é um representante de nossa mais pura identidade, mas também, que é um cidadão presente, como guerreiro em uma aldeia ou advogado em um escritório de uma grande cidade.

 

Precisamos devolver ao índio algo muito mais valioso que a terra que eles têm de direito: o respeito. O símbolo desta luta é Galdino Jesus dos Santos, sua lembrança como personagem de um ato cruel até hoje impune.

 

 

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Galdino e a luta do povo originário brasileiro.

Resistir para existir.

De Mura Zulu

 

 

Lembrar Galdino

é manter vivo

o espírito da resistência

 

É também lembrar do descaso,

ignorância e indecência

com que a sociedade brasileira

desconsidera o indígena

Sua própria essência

 

Retrato de uma sociedade

egocentrada, euro-americanizada,

plena de indivíduos,

sofrimento, morte

A sociedade da desumanidade

 

Pessoas que estão acima de tudo

e de todos, pura ganância

Doentes pela síndrome do poder

Que cega a alma para a essência

de todo o viver

 

A maioria das pessoas nunca ouviu

e não sabe qual é a verdadeira situação

do povo indígena no Brasil

E também não demonstram

a menor preocupação

 

Para muitos, índio é passado

Assunto extinto, sem visibilidade

Memórias do atraso 

que deve dar vez à ordem e progresso

Ordem da opressão

Progresso da desumanidade

 

Para muitos, índio é uma realidade virtual

Foram esquecidos

Lembrados apenas no jornal,

em conflito com fazendeiros, garimpeiros,

em desenho nos livros de escola

e no Carnaval


 

 

 

 

 

Para muitos,

são figuras alegóricas da cultura

muito menos interessantes

que Neymar, Beyoncé ou BBB

 

Para muitos,

a verdade deste globo em que vivemos

está na TV, como devotos,

acreditam nela

E índio, nesse globo

só serve pra figurante de novela

 

Dizem que índio é preguiçoso

Não trabalha

Mas no Brasil, trabalho,

desde a colonização,

é o mesmo que escravidão

 

Dizem que índio é covarde, ingênuo

Mas a história esconde

como se fosse normal

as revoltas, levantes e batalhas

Resistências, desde a Revolta Tupinambá

Às manifestações recentes

no Distrito Federal

 

Galdino, Marçal Guarani, Cacique Chicão,

Payayá, Guaikuru, Payaguá, Mura, Xavante

São muitos nomes na história da resistência indígena,

Pouco conhecidos, esquecidos, inexistentes

 

Não imaginam quantos já foram assassinados

na luta pela terra, que se não é do índio,

não deve ser de ninguém, a não ser da Terra

 

Também não sabem que muitos

vivem na cidade,

em favelas, marginalizados,

sem espaço nessa sociedade

 

Se não têm espaço

Para muitos,

Nem existem

Se morrem

Pouco importa

 

A novela continua

e o final não é feliz.

 

 

 

Lideranças indígenas participam de atos pacíficos da Mobilização Nacional em Brasília, 2017  Foto: Kamikia Kisedje.

 

Veja mais fotos e matéria completa no site:

Mobilização Indígena  

 

 

Resistência indígena

Foto: Joedson Alves, Estadão.

Galdino e a realidade indígena

Fotomix de Dubdem/Dubzaine.

Resistência indígena

Foto: AP Photo/Eraldo Peres.

Resistência indígena

Foto: Reuters/Luiz Vasconcelos.

Galdino vive!

 É preciso manter viva a memória do índio Galdino. Crianças fazem oficina de camisetas em evento cultural na Cohab 5, Carapícuíba, São Paulo, 2010.  Foto: FabDub.

GALDINO: A LUTA POR JUSTIÇA CONTINUA